A grande notícia deste Natal (para mim, obviamente) é a volta da minha filha. Depois de oito anos longe –sete em Brasília e um em Londres–, Angela está para ficar em São Paulo, aqui ao lado de casa.
Ela me pediu, para a ceia, que cozinhasse a farofa de pão –receita da minha mãe, uma mistureba ítalo-brasileira que a família adora.
Mas aí tem um problema. A mãe, embora ainda esteja viva, sofre de demência senil em estado avançado. Não consegue falar, que dirá dar a receita da farofa.
Precisei recorrer à memória sensorial.
A farofa da minha mãe era bem molhadinha, com farinha de rosca adicionada da um refogado de tomate e cebola, mais o acréscimo de azeitonas, ovos cozidos e salsinha no final.
Eu poderia tentar reproduzir fielmente a receita da velha, mas seria impossível. Porque são outros tempos. E porque eu sou eu, não sou ela.
Minha mãe fazia a farofa com restos de pão francês da mais ordinária qualidade.
Quando eu era criança, as padarias de São Paulo acrescentavam um composto químico chamado bromato de potássio à massa do pão francês. Era algo que inflava o pãozinho. Ele ficava bonitão, mas era puro vento. Depois de uma ou duas horas, se desmanchava em farelos.
Foi por isso que mudaram a legislação e obrigaram as padocas a vender o pão francês pelo peso, não pela unidade.
Eu usei migas de pão de fermentação natural, desidratado a 60 ºC por 90 minutos na airfryer. O mesmo aparelho assou os tomates italianos orgânicos por duas horas a 80 ºC.
Fiz um refogado de cebolas roxas com azeite extravirgem (Natal, afinal). Cozinhei os ovos caipiras orgânicos por exatos oito minutos, para obter a gema firme, porém ainda úmida.
Como você já deve ter percebido, lancei o raio gourmetizador na farofa da velha.
Ficou bom? Para cacete, todo mundo amou. Arruinei a receita da mãe? Com toda certeza.
Mas a vida é assim. Nenhuma receita é a mesma quando outra pessoa a executa. Por isso adoro cozinhar.
Aqui, a receita da farofa de pão da dona Ana, versão Cozinha Bruta.
Feliz Natal.
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