“Ah! Como o café é doce! Mais lindo que mil beijos, mais suave que o vinho moscatel. Café, preciso de café. E se alguém quiser me dar um presente, ah!, só me dê um café!”
As palavras são de Liesgen, protagonista de uma miniópera cômica de Johann Sebastian Bach (1685–1750), um dos maiores nomes da música erudita.
Bach compôs na década de 1730 a obra sobre a bebida que se popularizava pela Europa naquele século, período em que o café era visto por muitos como um malefício, por seu efeito estimulante. Não muito antes de Bach compor a peça, aliás, o café chegou a ser alvo de tentativas de banimento por autoridades de diferentes países.
Por isso, a obra de Bach retrata o vício da jovem Liesgen em café e como seu pai, Schlendrian, faz de tudo para convencer a moça a abandonar a bebida.
Batizada como “Fiquem Quietos, Parem de Tagarelar”, a peça acabou ficando mais conhecida como “Cantata do Café”. Logo nas primeiras aparições, o pai da personagem já manifesta sua preocupação com o hábito que a filha desenvolveu. Ele reclama por ela não dar ouvidos a sua recomendação e insiste que ela não deve tomar café.
“Sua criança má, sua garota selvagem! / Oh! Se ao menos eu pudesse fazer do meu jeito: / livre-se do café!”, implora o pai em uma das primeiras partes da obra.
Ao que a jovem responde:
“Pai, não seja tão duro! / Se três vezes ao dia eu não puder / beber minha xícara de café, / então eu ficaria tão chateada”.
Schlendrian ameaça privar a filha de uma série de prazeres caso ela não abandone o café. Ela não poderá sair, ir a festas de casamento e será proibida até de ficar na janela vendo as pessoas na rua. Nada disso faz Liesgen cogitar abandonar o café. “Posso facilmente viver sem isso”, responde. “Só deixe eu ficar com meu café!” “Deixe-me apenas o meu prazer”, implora.
“Você é impossível Liesgen, você é / você desistiria de tudo que eu digo?”, diz o pai, inconformado.
A situação chega a ponto de Schlendrian ameaçar privar a filha de casar-se caso ela não largue o café.
Foi a única ameaça que, aparentemente, deixou Liesgen preocupada. Até que, diante desse ultimato, ela enfim consente em abandonar o café.
Mas pede que, diante da situação, seu pai se apresse e encontre logo um marido. “Se ao menos isso pudesse acontecer de uma vez, / para que finalmente em vez de café / antes de eu ir para a cama / eu poderia conseguir um amante lascivo!”
O pai então sai em busca de um marido, feliz pelo fato de a filha ter aceitado largar o café. Mas ele não sabe que Liesgen guardava uma carta na manga.
Ela faz secretamente seu pretendente prometer que, caso o casamento se concretize, ele a deixará fazer café quando bem entender. A condição era tão importante que ela faria constar no contrato de casamento!
O narrador diz então que Liesgen deixa que isso seja secretamente conhecido: “Nenhum pretendente meu deve vir à casa / a menos que ele mesmo tenha prometido / e também esteja escrito no contrato de casamento / que me será permitido / fazer café quando eu quiser.”
Bach enfim arremata sua peça cômica com a seguinte canção: “O gato não abandona o rato, / as jovens continuam viciadas em café. / A mãe ama sua xícara de café, / a avó também bebia. / Quem pode culpar as filhas?”.
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