À primeira vista, Genebra parece pouco atraente. Quando alguém pesquisa atrações da cidade suíça, as dicas mais recorrentes são um relógio de flores, o próprio lago Leman e o seu jato d’água, além lugares como o Promenade de la Treille, que ostenta o curioso recorde de ter o maior banco de madeira do mundo, com 120 metros de comprimento.
Esse aparente marasmo contrasta com a relevância política da cidade. Genebra tem a maior concentração de organizações internacionais do mundo. Lá estão as sedes do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, da Médicos Sem Fronteiras e do Fórum Econômico Mundial, além de diversas agências ligadas à ONU —a sede europeia da organização, a segunda maior depois de Nova York, fica lá. A lista segue, gigante.
Genebra não é assim à toa. Ela se tornou esse lugar graças à tradicional neutralidade da Suíça, que é a pedra fundamental da sua política externa há pelo menos dois séculos. Por causa disso, o país, mesmo encravado entre potências militares, conseguiu passar por duas grandes guerras mundiais sem nunca ter sido invadido.
Essa neutralidade deriva também da ética protestante, que se estabeleceu em Genebra no começo do século 16, quando a cidade recebeu o teólogo francês João Calvino e milhares de perseguidos pelo catolicismo. Eles fizeram da cidade a capital mundial do protestantismo, que pregava o trabalho como a forma de alcançar a graça divina e criticava a avareza da Igreja Católica.
O turista pode perceber isso caminhando entre os prédios cinzas, com fachadas pouco adornadas na Cidade Velha, onde fica também a Catedral de Saint Pierre, escura, monocromática, bem diferente da opulência do Vaticano. Reformada em 1535, pelos protestantes, ela perdeu vitrais, cores, esculturas e adornos, que à época foram proibidos por lei.
A visita à catedral, aliás, é um bom ponto de partida. A entrada é gratuita, mas a visita ao sítio arqueológico que fica embaixo da igreja e que guarda resquícios que datam do século 4º, custa 12 francos (R$ 78). O ingresso dá ainda acesso aos 157 degraus que levam até o alto da torre, com vista panorâmica para toda a cidade.
A 15 minutos a pé dali fica o museu Patek Philippe, interessante para os apreciadores da alta relojoaria. Sua coleção de centenas de relógios, alguns do século 16, conta a história do ofício. O ingresso custa 10 francos, e a visita deve ser agendada pelo site no ato da compra —a instituição fecha às segundas, e nos outros dias só abre das 14h às 18h, salvo aos sábados, quando abre às 10h.
Uma parada obrigatória, mas que demanda planejamento, é a visita à sede europeia das Nações Unidas. É lá que diplomatas dos 193 países-membros da ONU se reúnem para discutir questões relacionadas aos direitos humanos, à ciência e à tecnologia, ao desenvolvimento e ao desarmamento.
O principal e mais antigo prédio do complexo, o Palácio das Nações, foi construído nos anos 1930 para abrigar a Liga das Nações, o embrião da ONU. Atualmente está em reforma, o que inviabiliza a visita a salas como a Câmara do Conselho, com portas de bronze e murais do catalão José María Sert, que ilustram a guerra, o progresso da humanidade e a união das nações pela paz. Mas o que resta é mais do que suficiente para fazer valer o passeio.
Também no prédio antigo, mas ainda aberta, está a Biblioteca da ONU. Os ambientes com pé direito altíssimo, esquadrias e carpetes verdes e cheio de detalhes em mármore, madeira e couro abrigam uma das coleções mais ricas da Europa. Estão lá registros documentais de cooperação internacional desde o início dos anos 1900 e até a medalha do Nobel concedido ao ex-secretário geral da ONU, Kofi Annan, em 2001.
A visita passa pelo edifício E, mais novo, de meados do século 20, que deve entrar em reforma até o final do ano. Nele estão as principais salas de conferência, como a do Conselho dos Direito Humanos, com seu teto de estalactites coloridas feito pelo artista espanhol Miquel Barceló. Também é possível dar uma espiadinha na mais nova sala do prédio, reformada em 2019 pelo Qatar.
Até os corredores merecem atenção: abrigam obras de arte e relíquias do mundo inteiro. Estão lá, em exposição permanente, uma série de ilustrações da Declaração Universal dos Direitos Humanos feita pelo artista plástico paulistano Otávio Roth, e resquícios da bandeira da ONU encontrados após o atentado ao escritório da organização em Bagdá, que matou, entre outras pessoas, o diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Melo.
As visitas à sede da ONU em Genebra custam 22 francos (R$ 143). As vagas são disputadas e precisam ser agendadas pelo site (ungeneva.org). Todo dia 20, as vagas para o mês seguinte são liberadas, e esgotam rápido.
Fechando a lista está o Cern, onde fica o mais famoso e poderoso acelerador de partículas. A visita não desce até o acelerador em si, a 175 metros de profundidade, mas leva até o Sincrocíclotron, o primeiro do tipo construído ali em 1957. Em frente a ele, e com a ajuda de projeções mapeadas que fazem parecer que o acelerador está funcionando bem diante dos nossos olhos, os guias contam um pouco da história e curiosidades do lugar.
Para fazer a visita, basta chegar assim que o centro de visitantes abre, às 8h30, quando as vagas começam a ser distribuídas por ordem de chegada —geralmente, se esgotam em menos de uma hora.
Depois da visita, vale explorar o museu de ciência que há ali, interativo e com algumas raridades, como o computador usado pelo cientista britânico Tim Berners-Lee para criar a World Wide Web —a internet!— em 1989.
Não deixe de fazer uma refeição no restaurante do Bains des Pâquis, balneário em meio ao lago Leman, com vista para o jato d’água. Nos dias frios, o carro-chefe é o fondue. Mas o cardápio, com ingredientes locais e orgânicos, também conta com opções para todas as ocasiões.
Deixe um comentário