Lar Gastronomia Já pensou em tomar uma tacinha de vinho boliviano? – 04/04/2025 – Isabelle Moreira Lima
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Já pensou em tomar uma tacinha de vinho boliviano? – 04/04/2025 – Isabelle Moreira Lima


No Vale de Cintis, no sul da Bolívia, a 2.300 metros de altitude, há uma comunidade em que vinhas velhas crescem como trepadeiras e chegam a seis metros de altura do solo ao se enrolar em árvores frutíferas. Há romã, maçã, marmelo, pimenta rosa e muitas uvas criollas. Pelos campos, correm galinhas, porcos, cachorros, gatos. É caótico, mas também a visão de um paraíso.

Esses vinhedos antigos de cerca de 200 anos são sobreviventes da filoxera, uma praga que assolou vinhas no mundo inteiro no fim do século 19 e começo do 20 e que paralisou a vitivinicultura da Bolívia até 1980, quando novas videiras foram plantadas.

Hoje, a natureza dá um jeito de se proteger, se biorregular: quando chove demais e o rio enche, as vinhas não sofrem, pois estão preservadas pelo sistema natural de trepadeira. A colheita é manual, mas é preciso acessar os cachos com a ajuda de escadas. Planta a planta tem que ser examinada porque, da maneira como foram conduzidas pelo tempo, elas se misturam.

Esse é o Jardín Oculto, a vinícola que María José Granier, de uma tradicional família boliviana produtora de vinhos, fundou em 2019 e que toca com a irmã Mercedes e o enólogo inglês Nayan Gowda. É um bom exemplo da nova fronteira do vinho que é aberta no país. Embora a história da bebida por ali tenha começado com os missionários católicos que chegaram pelo Peru no século 16, o país vive um momento importante de renascimento, abraçando a ideia do vinho de altura, marca criada pelo governo nos anos 1990, e mirando o passado para pensar no futuro.

As variedades que crescem neste Jardín Oculto são majoritariamente autóctones, como a negra criolla e a vischoqueña, resultado do cruzamento da listan prieto com a moscatel de Alexandria, uva mais plantada em território boliviano. Para o especialista Eduardo Milán, possivelmente o melhor degustador que temos hoje no Brasil, os vinhos feitos ali são o que se chama de “falso simples”. O Blanc de Noir Finca Lumen é um branco herbáceo e cítrico, com corpo médio e boa acidez. Já o Finca Los Membrillos Negra Criolla é um tinto de cor clara, belíssima, muito suculento e igualmente vivaz. No Brasil, são vendidos pela La Gruta.

Mais tradicionais são os vinhos feitos por outra vertente dos Granier, das vinícolas Granier Ortiz e Campos de Solana, hoje comandadas pela quarta geração da família, em Tarija, região vizinha ao vale de Cintis.

Por ali, a produção é mais tradicional ao investir nas uvas internacionais. Mas é interessantíssimo ver o que a altitude extrema pode fazer a castas que conhecemos de trás para a frente e que são marca de outras denominações de origem. É o caso da tannat, uma uva extremamente tânica e adstringente, difícil de “amaciar”. O Uruguai é especialista, mas a Bolívia surpreende ao entregar um tannat tão macio, elegante e redondo quanto o Garnier Ortiz Principia 2023. Vale provar ainda o elegantérrimo corte branco Campos de Solana Trivarietal, feito com viognier, riesling e sauvignon blanc. Os vinhos chegarão neste ano ao Brasil pela importadora La Charbonnade.

Vai uma taça?

Uma alternativa mais barata para provar uvas criollas é o Dandelion Criolla (R$ 99 na Toque de Vinho) ou a versão chilena Morandé Terrarum Reserva País (R$ 79 na Sonoma). Se a ideia é provar um tannat macio, uma dica segura é o da Bracco Bosca Reserva Tannat (R$ 110 na Via Vini), que pede um cordeiro assado.


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