Lar Internacional Por uma Moçambique mais igualitária – 01/12/2024 – Bianca Santana
Internacional

Por uma Moçambique mais igualitária – 01/12/2024 – Bianca Santana


Ouvir uma antropóloga feminista moçambicana sobre os protestos em seu país me levou ao Brasil de 2013: demandas populares legítimas reprimidas violentamente pelo Estado, sob o risco de serem capitalizadas por forças de oposição conservadoras.

As pessoas estão nas ruas denunciando irregularidades nas eleições, que mantiveram a Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) no poder, ocupado por ela, sem alternância, há 50 anos, desde a independência de Portugal. Mas também por um descontentamento geral com o empobrecimento, a precarização dos serviços públicos, em especial a saúde, a baixa escolarização da população e a falta de emprego.

“Estamos a atravessar um dos momentos mais críticos que o país já viveu nos últimos 15 anos, talvez desde a da guerra civil [1977 a 1992]. E com um grande potencial de transformação e de reconfiguração política”, me disse a mulher que vive em Maputo e preferiu guardar anonimato.

“O cenário em Moçambique é complexo e não pode ser visto por binarismos simplistas, ou de uma lente polarizada. Há um sentimento anti-Frelimo, mas é preciso trazer nuances e aprofundar a compreensão sobre os desafios que vem há muito minando a consolidação da nossa democracia.”

Sem vinculações partidárias, ela ressaltou o momento delicado, de extrema tensão, fragmentação social e desconfiança em relação a pessoas que se coloquem publicamente sobre o que está acontecendo em Moçambique e também de muita pressão para que se demonstre apoio ao candidato da oposição —que declara apoio a Bolsonaro e Trump. “Neste cenário, mesmo esta entrevista que estou a dar me colocaria desprotegida.” Desde as eleições do último 6 de outubro, 50 pessoas foram assassinadas em protestos e jornalistas foram presos.

Sua trajetória nos ajuda a compreender muitas questões que Moçambique tem enfrentado nas últimas décadas. Feminista decolonial, ela trabalha há uma década em programas que buscam melhorias nas políticas públicas de educação, igualdade de gênero e direitos das mulheres.

Por estar em um contexto de privilégio em um país de muitas desigualdades, ela se dedica à redução das desigualdades. Busca valorizar paradigmas e sistemas de conhecimento de matrizes africanas que podem constituir formas democráticas que sirvam melhor ao país.

Defensora de direitos humanos, participou da revisão da lei de educação que ampliou o ensino gratuito de seis para nove anos. Também esteve em campanha contra a proibição de meninas e mulheres grávidas estudarem no período diurno, e, em um movimento de debate público sobre o comprimento das saias das meninas, foi uma das que defendeu que as roupas não eram motivo para serem assediadas por professores. “Foi uma luta não só pelo acesso à educação para as meninas, mas também contra a estrutura patriarcal muito presente nas instituições públicas”, afirmou.

Apesar da preocupação com o cenário incerto, a violência crescente, a polarização incentivada também pelas redes sociais, compartilha seu otimismo com o aumento da conscientização política, que pode levar a um aprofundamento democrático.

Ela tem participado de rodas de conversas com mulheres de diferentes setores para incentivar que participem ativamente deste momento, tão definidor do futuro. As mulheres podem criar o novo ciclo da democracia de Moçambique. Futuro em que poderão falar o que quiserem, revelando o próprio nome.

Como parte da iniciativa Todas, a Folha presenteia mulheres com três meses de assinatura digital grátis


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.



FONTE

Deixe um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos relacionados

Internacional

Senado americano vota em gesto simbólico para bloquear tarifas de Trump contra o Canadá | Mundo

O texto, apoiado por quatro republicanos e todos os democratas do Senado,...

Internacional

Rússia defende Irã de ameaças de Trump e diz que ataque militar seria 'ilegal e inaceitável'

Presidente dos Estados Unidos voltou a dizer que atacará o Irã caso...

Internacional

Número de mortos no terremoto em Mianmar supera 3.000

Governo disse nesta quarta (3) que número de mortos por conta do...

Internacional

Mortes em Gaza desde retomada de ataques passam de 1 mil, diz Hamas; Israel diz estar ‘fragmentando’ território | Mundo

Exército israelense voltou a bombardear Faixa de Gaza há duas semanas, rompendo...